- Escrito Por: Redação
- Desporto
- 12 fevereiro 2026
João Carlos Pereira, presidente da Direção do Atlético Clube Marinhense (ACM), em entrevista ao JMG, fez o balanço do último ano e meio, anunciou a recandidatura nas próximas eleições e anunciou, para breve, a resolução do impasse vivido no Campo da Portela
As instalações do Campo da Portela foram fechadas a cadeado em junho de 2025. Como é que o Clube tem vivido desde essa altura?
Acabámos de fazer mais um aniversário. São 103 belos anos. Estamos a viver um momento de dificuldades financeiras, que não é uma coisa nova. Creio que o facto de não podermos ter acesso ao Campo da Portela nos tem criado muitas dificuldades. Tenho que enaltecer publicamente o esforço de toda a gente que está envolvida no dia a dia no Clube, funcionários, operacionais, treinadores, os nossos atletas e os pais, os sócios que têm sentido na pele esta dificuldade. Tem sido um esforço tremendo por parte da estrutura para fazer face a estes constrangimentos todos. Felizmente estamos rodeados de pessoas que ajudam bastante o Clube, continuam a acreditar, muitos deles de forma silenciosa, sem demonstrações públicas do esforço que desenvolvem. Isto é de enaltecer. Demonstra também um pouco a forma como se estão a viver as dinâmicas sociais dentro do Clube, que está um bocadinho mais próximo das pessoas. As pessoas não vão deixar cair ao Clube. Isto é um sinal muito positivo. É algo que me permite ter otimismo e estar positivo quanto ao futuro.
Temos feito face a estas dificuldades da forma como temos conseguido. Com muito esforço e dedicação, numa tentativa de encontrar soluções, junto de organizações da nossa cidade. Não nos podemos esquecer que a Câmara tem sido um parceiro fundamental. Mas tudo isto tem custos, operacionais, financeiros. De repente, tivemos de reestruturar todas as nossas operações, despender mais recursos, não tem sido fácil.
Creio que é uma situação que era completamente evitável. Eu pessoalmente não entendo o porquê desta situação. Ou seja, talvez o entenda, mas à luz de algo que é colateral ao foco ou àquilo que devia ser o foco da questão. Mas aqui estamos, de forma positiva, a encarar a realidade. Em termos de futuro, acreditamos e temos sinais que nos indicam que as coisas se podem resolver em breve. Estamos otimistas quanto à resolução para breve desta questão, de uma forma ou de outra. Porque na realidade, mesmo sem se finalizar o acordo com o promotor, temos que ter acesso à Portela, porque isto nos coloca problemas gravíssimos. Perdemos atletas, temos perdido muita coisa, ganhámos outras. Conseguimos mobilizar mais pessoas à volta do clube, conseguimos aumentar o número de sócios ativos. Há uma outra dinâmica que também é resultado de todo o contexto, mas acho que ultrapassámos alguns limites que não havia necessidade.
Está-se a referir à atuação do associado Juventino Fernandes?
Não, estou-me a referir à situação de sermos privados de usufruir do espaço, que há 100 anos, ou à volta disso, é a nossa sede, onde temos desenvolvido muitos jovens atletas, temos impactado no desenvolvimento de muitas pessoas, algumas delas até são notáveis da nossa comunidade. Enfim, é uma situação que era evitável.
Como é que estão as relações com o associado Juventino Fernandes? E, em concreto, o que é que se pode dizer relativamente à resolução desta situação?
Vamos tentar dissociar as coisas. Primeiro, o Sr. Juventino Fernandes é uma pessoa que eu respeito bastante, é uma figura incontornável na vida do clube e o seu nome vai estar sempre ligado à história do Marinhense. Para mim, ele é o presidente do Marinhense, porque sempre o vi dentro do clube e sempre presente. Aquilo que ele fez têm sido gestos sucessivos de altruísmo para com o clube, não nos podemos esquecer disso e o clube tem de estar grato a uma pessoa que sacrifica a sua vida pessoal, financeira, o seu tempo, a sua energia, para tentar contribuir para um projeto de um clube. Um clube que terá de ser sempre representativo de uma comunidade. Enfim, a cidade também tem de estar à volta do clube, e é isso que nós pretendemos.
Mas, por outro lado, eu não quero criticar pessoas, quero criticar o gesto, ou o ato de impedir o clube de usufruir do seu dia a dia, ou de poder desenvolver as suas atividades diárias de forma normal. Acho que era desnecessário, porque isto não nos leva a lado nenhum. Pelo contrário, criou-nos muitas dificuldades que não havia necessidade de passar por elas. Mas, pronto, é desta forma que eu vejo, sem nunca deixar de ter um sentimento de gratidão para com o Sr. Juventino Fernandes e a sua família, naturalmente.
Há um promotor interessado em adquirir as instalações do Campo da Portela para a construção de um centro comercial, e já terá havido contactos com a Câmara. O que pode dizer a esse respeito?
Aquilo que posso partilhar é que já há muito tempo que isto está a ser desenvolvido. Numa fase inicial, tivemos que desenvolver um trabalho de sensibilização do anterior executivo sobre esta situação. As pessoas sempre tiveram uma abordagem muito colaborativa e sentimos o mesmo do novo executivo. Por isso é que eu, de forma muito tranquila, sei que o Marinhense vai ter apoio sempre da Câmara. Isto também foi um trabalho feito por esta direção, porque as relações entre o Marinhense e outras instituições da cidade não eram as melhores. Há um interesse global. É do Marinhense, é do promotor, é do Sr. Juventino Fernandes, é da Câmara, é da comunidade, é dos sócios do ACM. E creio que estamos preparados para dar esse passo. Tem sido um trabalho muito difícil, com avanços, recuos, muita discussão.
Quero olhar para isto de forma positiva. A verdade é que estamos a começar a ver a luz ao fundo do túnel. Já estivemos em fases anteriores em que as coisas estiveram quase a resolver-se. Por uma razão ou outra não foi possível. Estas coisas têm o seu timing e temos que respeitar estes timings. Espero que muito em breve se consiga resolver e estar preparados para o passo seguinte. Porque, infelizmente, perdemos demasiado tempo e energia à volta deste tema e que nos foi criando algumas dificuldades em termos de implementação do nosso projeto. Creio que agora estaremos em condições de, muito em breve, isto se resolver.
Faltam cerca de seis meses para terminar este mandato. Pensa que consegue chegar ao final do mandato com esta situação resolvida?
Sim, muito objetivamente sim. Aliás, inicialmente essa era e continua a ser a nossa prioridade. Tínhamos um projeto para implementar, tivemos que encarar constrangimentos de ordem financeira, desenvolvemos diversos planos de pagamento a terceiros, a fornecedores, atletas, treinadores. Aos poucos temos vindo fazer face a esses compromissos. Neste momento, estamos numa fase terminal de pagar a instituições como a Federação Portuguesa de Futebol e a Associação de Futebol de Leiria. Infelizmente não conseguimos ainda resolver todas as situações, porque os recursos são escassos e temos que os gerir muito bem. Acho que do ponto de vista financeiro, o nosso financeiro fez um trabalho fantástico até ao momento.
A vida continua, estamos em condições de dizer que estamos bastante melhor em termos financeiros, mas não estamos ainda livres de encargos que continuam a ter que ser satisfeitos mês a mês. Temos acordos de pagamento até 2027, mas estamos bem melhor, há um maior desafogo financeiro, pelo menos não temos que andar a levantar tapetes à procura de tostões, mas continuamos a sofrer na pele todos os meses a dificuldade de ter que satisfazer as necessidades financeiras e económicas do clube.
A compra da Portela pelo promotor deverá rondar os três milhões de euros, em que um milhão seria para resolver estas questões e o restante para a construção da academia. O que falta para desbloquear este processo?
Eu não queria ser muito maçador e entrar em demasiados detalhes. Creio que o mais importante percebermos é que houve um determinado tipo de coisas que tiveram que ser satisfeitas para chegarmos até agora. Falta, na realidade, meter no papel e assinar o acordo entre o promotor e as marcas que se vão associar a este projeto. Isto prende-se com gestão de franchisados, obtenção da assinatura das pessoas certas em representação das marcas, e a partir daqui vai-se desencadear o processo em que entra um projeto na Câmara, e a Câmara e os serviços vão aprovar isto seguramente, porque uma das condições obrigatórias para que isto seja possível é que seja de interesse público e, naturalmente, acho que estamos todos de acordo, pelo menos os intervenientes no processo, que isto serve os interesses públicos da comunidade. A partir daí vamos ter que começar a pensar no passo seguinte, que já está preparado, que é onde é que vamos utilizar estes recursos. É claríssimo para mim e para esta direção que em momento nenhum este dinheiro vai ser utilizado para comprar jogadores ou para trazer treinadores. Queremos garantir que o clube tenha património, capacidade de crescimento, para que outras gerações de dirigentes possam vir e tenham o caminho desbravado para implementar projetos ambiciosos e com ideias novas. Este é o nosso objetivo, tem sido o nosso propósito, o trilho está traçado e vamos continuar em cima dele.
E relativamente à localização da academia?
Felizmente estamos num contexto onde há terrenos, mas nem todos têm as melhores características ou a melhor localização. Estas coisas são muito complexas porque envolvem negociações e, muitas vezes, o segredo é a alma do negócio. Lamento não poder dizer ainda, mas é uma questão de tempo. Temos duas ou três possibilidades, não só em termos de localização, como direções em que pretendemos avançar. Uma academia só, um espaço mais uma academia, enfim, parcerias que estão a ser discutidas e em cima da mesa. A Câmara está por dentro de tudo, tem sido um parceiro excecional, queremos que assim continue e a Câmara também tem a nossa garantia de que vamos estar de forma proativa a implementar um projeto que nos permita alavancar recursos que temos na cidade. Porque temos um estádio municipal, uma zona desportiva única, que neste momento carece de requalificação, e quem sabe aproveitar esta onda para otimizar todos estes recursos.
Relativamente ao projeto para a área da formação, e sobre os seniores, o que pode dizer?
O nosso projeto de formação está a correr muito bem. Não gosto de meter a tónica nos resultados, gosto mais de me focar nos processos e sistemas. Tínhamos um projeto desportivo a implementar, com uma mudança de paradigma, que não está ainda a ser implementada a 100%, mas demos passos seguros, reestruturámos a estrutura técnica, temos melhores recursos humanos. Tivemos um retrocesso neste processo com a impossibilidade de entrarmos neste espaço, mas conseguimos fazer as coisas de maneira bastante boa perante as dificuldades e estes constrangimentos todos. Temos duas equipas nacionais, estamos em vias de, se Deus quiser, ter uma terceira, se não tivermos não é por aí, porque o projeto vai continuar independentemente dos resultados de uma equipa ou de outra.
Falou dos seniores e, como sabe, esse é um tema quente, é onde se esgota a maior parte dos recursos, sobretudo financeiros, que nós não temos. Temos um parceiro que fez um acordo ainda com a anterior direção, nós fizemos um aditamento a esse contrato, porque achámos que devíamos alterar algumas coisas de forma a que pudéssemos não canalizar tantos recursos para os seniores, porque tínhamos necessidades mais urgentes na formação e no clube em si. Muitas vezes pensamos, temos que subir de divisão, temos que atingir isto… Há uns meses tivemos que repensar tudo isto, porque estávamos em modo de sobrevivência, ainda não estamos muito melhor, ou seja, estamos melhor, mas não estamos a viver uma vida tranquila. Mas é importante percebermos que temos um parceiro, que neste momento terá 100% de responsabilidades financeiras, na altura não teria, ele toma decisões, ele é que contrata treinadores, despede treinadores, ele é que contrata jogadores, toda a estrutura do clube, não é o presidente que despede um roupeiro, nem que escolhe bolas, equipamentos, nada. Temos que perceber isto. O clube e o presidente zelam por que se cumpram determinados parâmetros, nomeadamente que não se mude o emblema, que não se mudem as cores.
Este aditamento do contrato termina no final desta época, por uma questão de princípio nós achamos que os contratos são para cumprir, continuaremos a fazer o que pudermos para contribuir para que o contrato seja cumprido, esperamos que da outra parte o nosso parceiro também o cumpra, naturalmente ele tem passado por muitas dificuldades. Podemos questionar muita coisa, que nós não estaríamos inicialmente de acordo, como por exemplo contratar muitos jogadores. Nós gostaríamos, porque esse é o nosso projeto, de ver mais jogadores da nossa região, na nossa cidade, mas encaramos isto como um período de transição. Os resultados não são a ser os melhores nos seniores, o que nos custa, mas da mesma forma que olho para os resultados na formação, olho para os resultados nos seniores. Não é o fim do mundo não ter os melhores resultados. Temos que criar condições para que o clube possa ter um futuro diferente, e se isso implicar dar passos atrás, nós damos passos atrás. Este é um projeto a ser implementado a médio/longo prazo, portanto os resultados por si só vão validando ou não o processo, vão direcionando o projeto, mas não podemos perder nunca o norte.
Olhando para o futuro, está motivado para se recandidatar a mais um mandato?
Eu e a minha direção, nenhum de nós precisa de protagonismo nem do clube, para fazer as nossas vidas. Felizmente, a minha vida tem sido direcionada num determinado sentido e sabia que, mais tarde ou mais cedo, o meu caminho ia cruzar-se de novo com o ACM. Calhou ser naquela altura. Perante todas estas dificuldades, o mais normal seria nós sairmos para que pudesse entrar mais gente que pudesse contribuir para fazer mais coisas. Mas a verdade é que, perante este cenário, acho que não é o momento de abandonar este projeto, por várias razões. Nós estamos cada vez mais unidos, vamos continuar todos, queremos mais gente a juntar-se a nós, queremos desenvolver o nosso projeto. Sei que tem sido um tema quente o facto de o presidente estar fora, e queria esclarecer uma coisa: o presidente está fora, mas criou condições para que a estrutura tivesse capacidade de resposta para o dia a dia do clube. Tenho vice-presidentes que estão aqui de corpo e alma, a estrutura vai ser melhorada, se os sócios assim entenderem, e se nós continuarmos no clube, cá estaremos para restruturar isto ainda melhor. Estamos otimistas quanto ao futuro e não é o momento de deitar a toalha ao chão. Os nossos sócios têm um grupo de pessoas muito empenhadas em tocar para a frente todos estes temas e ideias que faltam implementar.
Que mensagem gostaria de deixar à família do AC Marinhense?
São 103 anos de uma história muito bonita, muito rica, mas temos muito mais coisas para conquistar no futuro. No falo apenas em coisas tangíveis como um título, ou ganhar um jogo ou um campeonato. O Marinhense tem uma finalidade, nasceu com objetivos, e nós, enquanto direção, temos que ser guardiões deste tipo de propósito. Servimos uma comunidade, queremos que a comunidade esteja próxima do clube, queremos ter melhores colaborações e melhores relações com todas as outras instituições, sobretudo os nossos competidores desportivos. Acho até que podíamos fazer coisas mais interessantes em conjunto, de forma a que se consigam aproveitar as sinergias e avançar com as coisas que temos em mente.
15/01/2026






